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1. INTRODUÇÃO
Este artigo tem como
finalidade analisar as diferentes culturas do meio rural e do centro
urbano. Ele parte de pesquisas realizadas em várias bibliografias
e também análise de algumas escolas rurais e urbanas,
tendo como referencial a educação escolar das crianças,
sua cultura e seu desenvolvimento social, comunitário e intelectual.
Essa pesquisa parte
do pressuposto de que a educação rural fica silenciada
no currículo escolar, esquecendo seus valores, costumes os
quais, quando lembrados, são explorados de maneira sutilmente
ingênua fazendo da cultura rural um simples instrumento para
enriquecer as festas urbanas, sem levar em consideração
que a cultura rural muitas vezes nasce do sofrimento e das precárias
condições de vida que o meio oferece.
“(...)
no cotidiano de nossas salas de aula, precisamos estar atentos
para outros mundos – como os construídos longe dos
grandes centros urbanos, se quisermos nos contrapor à exclusão
de muitos e à cidadania de poucos, buscando contribuir
para a construção de uma sociedade efetivamente
mais democrática”. (KNIJNIK, 1996:143)
2. EDUCAÇÃO E MEIO RURAL
“Recentemente,
o Ministério da Educação divulgou um conjunto
de documentos que chamou de Parâmetros Curriculares Nacionais.
Alguns professor(es)(as) até agora não tiveram acesso
a esse material elaborado por um grupo bastante restrito de educador(es)(as)
em um processo que sob muitos aspectos é criticável.
Não é meu objetivo neste texto discutir tais parâmetros.
Menciono-os aqui, pois me interessa, para iniciar a discussão
sobre Educação e Meio Rural, citar uma passagem
onde há referência da área de Matemática.
No item dos Blocos de Conteúdos, onde são tratados
Espaço e Forma, está escrito: “Sabe-se por
exemplo, que não é raro encontrar adultos com pouca
escolaridade, residentes em grandes centros urbanos mas originários
em especial de regiões rurais, que têm medo de sair
sozinhos e se perder . (KNIJNIK, 1996:141)
Essa parte do argumento
para que seja trabalhado Espaço e Forma na escola é
uma maneira levemente ingênua de criticar o homem rural por
ter medo de se perder na cidade, enquanto os perigos da cidade atingem
tanto quem vive no campo, quanto quem vive na cidade. Esse argumento
nega a capacidade intelectual do homem do meio rural ao chegar ao
meio urbano. E o argumento não conta que o homem da cidade,
quando chega no campo, também tem medo de sair sozinho e
se perder. Se comparados o medo que o homem do campo tem da cidade
e que o homem da cidade tem do campo, com certeza haverá
uma equivalência entre eles ou, talvez, o citadino seja mais
medroso.
O mundo rural fica
esquecido, sua complexidade se torna invisível. Nele vivem
milhões de famílias que querem ficar ali, plantando,
colhendo e até mesmo produzindo alimentos para a população
urbana.
“(...)
são milhões de crianças que, na escola, vêem
seu mundo sempre ocultado, seja através do que consta nos
livros didáticos, seja através dos conteúdos
trabalhados na sala de aula, conteúdos da cidade”.
(KNIJNIK, 1995:142)
São citados
os costumes que as crianças trazem de casa, seus modos de
vida, como suas músicas preferidas, tipos de comida, danças.
Seus saberes adquiridos não são vistos como dignos
de serem considerados saberes escolares. E quando tais saberes são
trazidos para o cotidiano escolar, são feitos de maneira
folclórica, exótica, avacalhada, como se cultura só
se adquirisse no mundo globalizado, ou socialmente desenvolvido.
Denegrindo assim a imagem do ruralista que aplaude ao ver sua cultura
exibida, sem perceber que está sendo cobaia dos astutos organizadores
de eventos educacionais urbanos.
Um exemplo real dessa
camuflagem cultural são as festas juninas. As escolas treinam
as crianças para dançarem a famosa quadrilha, com
roupas típicas, remendadas, chapéus de palha, botinas
velhas e cabelos trançados. É feita a dança
sem conscientizar as crianças das condições
financeiras da comunidade rural. Os organizadores ainda colorem
os dentes das crianças simbolizando o descuido que o homem
rural tinha com seus dentes, sem refletir com elas que eles tinham
os dentes estragados por falta de orientação de saúde
bucal, por más condições financeiras de procurar
o dentista. As camisas xadrez e os vestidos de chita não
eram assim pelo fato de gostarem do colorido, mas porque esse era
o tecido que eles podiam comprar e assim eram as calças,
as botinas velhas e os chapéus de palha que eles mesmos fabricavam.
Deve ser esclarecido
para os educandos que a cultura rural nasce também do sofrimento
e das precárias condições de vida do homem
do campo. O remendo nas roupas era uma forma de economizar a compra
de outros, a comida típica era tudo o que eles colhiam, como
o milho, o arroz, o feijão, o amendoim... seria interessante
ressaltar com as crianças que no meio rural vive-se em comunidade
onde um ajuda o outro, e que isso faz parte de sua cultura. As danças,
a comida, os trajes típicos fazem parte da vida dele. O que
é bem diferente do homem da cidade que vive em sociedade,
onde cada um é por si, há presença de valores
no meio rural e ausência desses mesmos valores no meio urbano.
As crianças
rurais são obrigadas a incorporarem a cultura urbana em seu
meio, enquanto as crianças urbanas desconhecem o modo de
vida do meio rural, a não ser de uma forma vulgarizada em
festas, danças, piadinhas. “A escola rural é
assim, é uma escola que estando lá, está fora
dali”. (KNIJNIK, 1996:142)
Há uma grande
diferença no modo de vida das duas populações
mas, mesmo as pessoas que estão atentas a essa diferença,
pouco questionam sobre os conteúdos aplicados em sala de
aula, como se o conhecimento dos alunos não tivesse nenhum
valor social.
“Tomemos
como exemplo uma das disciplinas escolares que num olhar mais
apressado parece ser a mais imune às diferenças
culturais. Falo da matemática (...) somos convidados a
pensar do jeito diferente de ensinar seus conteúdos, em
métodos que levam os alunos e as alunas a aprender mais
matemática. A pergunta a ser feita é: Que matemática?
Seremos tão ingênuos para pensar que o que chamamos
de matemática é um conjunto de saberes que foi desinteressadamente
definido como a matemática? E que está definitivamente
constituído, acabado, portanto é um conhecimento
morto ao qual nos cabe somente repassar da melhor maneira possível?
Seria portanto, a Educação Matemática somente
uma questão de escolha do melhor método?”.
(KNIJNIK, 1996:143)
A matemática
é apenas uma parte dos parâmetros seguidos pela escola,
ela é “eurocêntrica, branca, masculina e
urbana”, mas, há outras disciplinas que ignoram
a cultura rural, abafando vozes, sufocando sonhos.
A cultura é
um sistema, um todo, um conjunto de elementos ligados estreitamente
uns aos outros, que pode sofrer modificações no contato
com outros povos.
“Cada geração
passa por um processo de aprendizagem no qual assimila a cultura
de seu tempo e se torna apta a enriquecer o patrimônio cultural
das gerações futuras. É nesta capacidade que
temos de perpetuar a cultura que reside a possibilidade de progresso.
Todo progresso é resultado de uma síntese de elementos
novos com elementos já adquiridos. Uma cultura não
pode sofrer uma quebra de continuidade entre uma e outra geração.
Por mais viva e inventiva que seja uma cultura, as gerações
não rompem inteiramente com seu passado”. (OLIVEIRA,
1995:93-94)
A educação
escolar das crianças do meio rural fica fragmentada, quando
lhe são implantados os valores e costumes urbanos, porque
a realidade deles é outra. Eles podem se sair muito bem na
escola, mas, na vida eles vão se comportar de outra maneira,
muito do que eles aprendem na escola não tem um valor utilitário
para a vida deles, está fora do seu contexto.
Se a educação
rural deixar de ficar “silenciada no currículo”
e os educadores se empenharem no desenvolvimento e exploração
da cultura rural, o aprendizado das crianças, a convivência
social com certeza terão muito mais êxito e as crianças
terão mais prazer nas salas de aula, pois, estarão
falando sua própria língua e aperfeiçoando
seus conhecimentos, mantendo viva a sua história, seu modo
de vida, sem abrir mão da qualidade do ensino.
O que não se
deve fazer é repetir a história da colonização
do Brasil, onde ocorreram intensos contatos do homem branco com
o índio, com os africanos trazidos como escravos e a mistura
dos costumes resultou numa aculturação, tendo como
conseqüência a perda de várias características
de ambas as culturas, não restando nenhuma das raças
com sua cultura intacta.
A educação
cultural de um povo implica várias dimensões, não
comportando um padrão único, restrito. “A
cultura é uma hereditariedade social que o homem recebe e
transmite. Tudo que é puramente privado não faz parte
da cultura”. (Mondim, 1980:173)
Cada povo tem sua própria
cultura, não existe sociedade, comunidade desprovida de cultura.
“A combinação dos traços culturais
em torno de uma atividade básica forma um complexo cultural”.
(CORDEIRO, 2002:06)
3. CONCLUSÃO
Fala-se muito em trabalhar
a realidade dos alunos, porém, o que se vê nas salas
de aula é um projeto puramente teórico, longe do contexto
da criança, transportando-a para um mundo desconhecido e
descaracterizando-a de seu mundo real. Deixando lacunas em seu aprendizado,
enfatizando a cultura urbana, esquecendo seu mundo rural.
Em nome da “Educação”
faz-se mistura cultural, priorizando a cultura urbana e desvalorizando
o conhecimento da vida rural.
Portanto, o de que
se precisa na educação é de pessoas conscientes,
capazes de trabalhar no cotidiano escolar não só com
parâmetros fornecidos pelas secretarias, mas que juntem teoria
e prática e, assim, formem sujeitos críticos, reflexivos,
capazes de lutar para a construção de uma democracia
que reconheça seus direitos, valores, respeitando a realidade
de cada um.
“(...)
a pessoa não é um resultado já belo e adquirido
desde o nascimento, mas, antes, uma mina riquíssima de
possibilidades, pelas quais a pessoa é, em larga medida,
uma conquista”. (MONDIM, 1980:298)
O conceito de cultura
é um conceito a ser considerado, ao se estabelecer a relação
entre Educação e Sociedade. Não há sociedade
sem cultura e não se fala em cultura sem interferência
de uma relação social.
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CORDEIRO, Aurora Marilda.
A Relação entre Natureza, Cultura e Homem. Instituto
Superior de Educação de Cláudio: Cláudio,
2002. 6 f. Mimeografada.
KNIJNIK, Gelza. [et al] A Educação em Tempos de Globalização.
Porto Alegre: DP & A, 1996, s/p.
MONDIM, Batista. O Homem: elementos de antropologia filosófica.
[tradução R. Leal Ferreira e M.A.S. Ferrar, revisão
de Danilo Moraes]. São Paulo: Edições Paulinas,
1980, 324 p.
OLIVEIRA, Pérsio Santos. [et al] Introdução
à Sociologia. 14 ed., São Paulo: Ática, 1995,
207p.
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