CULTURA, SOCIEDADE, EDUCAÇÃO E MEIO RURAL

Maria do Carmo Cordeiro
Aluna do 2º período do CURSO NORMAL SUPERIOR, Instituto Superior de Educação de Cláudio – ISEC/FUNEDI/UEMG


1. INTRODUÇÃO

Este artigo tem como finalidade analisar as diferentes culturas do meio rural e do centro urbano. Ele parte de pesquisas realizadas em várias bibliografias e também análise de algumas escolas rurais e urbanas, tendo como referencial a educação escolar das crianças, sua cultura e seu desenvolvimento social, comunitário e intelectual.

Essa pesquisa parte do pressuposto de que a educação rural fica silenciada no currículo escolar, esquecendo seus valores, costumes os quais, quando lembrados, são explorados de maneira sutilmente ingênua fazendo da cultura rural um simples instrumento para enriquecer as festas urbanas, sem levar em consideração que a cultura rural muitas vezes nasce do sofrimento e das precárias condições de vida que o meio oferece.

“(...) no cotidiano de nossas salas de aula, precisamos estar atentos para outros mundos – como os construídos longe dos grandes centros urbanos, se quisermos nos contrapor à exclusão de muitos e à cidadania de poucos, buscando contribuir para a construção de uma sociedade efetivamente mais democrática”. (KNIJNIK, 1996:143)


2. EDUCAÇÃO E MEIO RURAL

“Recentemente, o Ministério da Educação divulgou um conjunto de documentos que chamou de Parâmetros Curriculares Nacionais. Alguns professor(es)(as) até agora não tiveram acesso a esse material elaborado por um grupo bastante restrito de educador(es)(as) em um processo que sob muitos aspectos é criticável. Não é meu objetivo neste texto discutir tais parâmetros. Menciono-os aqui, pois me interessa, para iniciar a discussão sobre Educação e Meio Rural, citar uma passagem onde há referência da área de Matemática. No item dos Blocos de Conteúdos, onde são tratados Espaço e Forma, está escrito: “Sabe-se por exemplo, que não é raro encontrar adultos com pouca escolaridade, residentes em grandes centros urbanos mas originários em especial de regiões rurais, que têm medo de sair sozinhos e se perder . (KNIJNIK, 1996:141)

Essa parte do argumento para que seja trabalhado Espaço e Forma na escola é uma maneira levemente ingênua de criticar o homem rural por ter medo de se perder na cidade, enquanto os perigos da cidade atingem tanto quem vive no campo, quanto quem vive na cidade. Esse argumento nega a capacidade intelectual do homem do meio rural ao chegar ao meio urbano. E o argumento não conta que o homem da cidade, quando chega no campo, também tem medo de sair sozinho e se perder. Se comparados o medo que o homem do campo tem da cidade e que o homem da cidade tem do campo, com certeza haverá uma equivalência entre eles ou, talvez, o citadino seja mais medroso.

O mundo rural fica esquecido, sua complexidade se torna invisível. Nele vivem milhões de famílias que querem ficar ali, plantando, colhendo e até mesmo produzindo alimentos para a população urbana.

“(...) são milhões de crianças que, na escola, vêem seu mundo sempre ocultado, seja através do que consta nos livros didáticos, seja através dos conteúdos trabalhados na sala de aula, conteúdos da cidade”. (KNIJNIK, 1995:142)

São citados os costumes que as crianças trazem de casa, seus modos de vida, como suas músicas preferidas, tipos de comida, danças. Seus saberes adquiridos não são vistos como dignos de serem considerados saberes escolares. E quando tais saberes são trazidos para o cotidiano escolar, são feitos de maneira folclórica, exótica, avacalhada, como se cultura só se adquirisse no mundo globalizado, ou socialmente desenvolvido. Denegrindo assim a imagem do ruralista que aplaude ao ver sua cultura exibida, sem perceber que está sendo cobaia dos astutos organizadores de eventos educacionais urbanos.

Um exemplo real dessa camuflagem cultural são as festas juninas. As escolas treinam as crianças para dançarem a famosa quadrilha, com roupas típicas, remendadas, chapéus de palha, botinas velhas e cabelos trançados. É feita a dança sem conscientizar as crianças das condições financeiras da comunidade rural. Os organizadores ainda colorem os dentes das crianças simbolizando o descuido que o homem rural tinha com seus dentes, sem refletir com elas que eles tinham os dentes estragados por falta de orientação de saúde bucal, por más condições financeiras de procurar o dentista. As camisas xadrez e os vestidos de chita não eram assim pelo fato de gostarem do colorido, mas porque esse era o tecido que eles podiam comprar e assim eram as calças, as botinas velhas e os chapéus de palha que eles mesmos fabricavam.

Deve ser esclarecido para os educandos que a cultura rural nasce também do sofrimento e das precárias condições de vida do homem do campo. O remendo nas roupas era uma forma de economizar a compra de outros, a comida típica era tudo o que eles colhiam, como o milho, o arroz, o feijão, o amendoim... seria interessante ressaltar com as crianças que no meio rural vive-se em comunidade onde um ajuda o outro, e que isso faz parte de sua cultura. As danças, a comida, os trajes típicos fazem parte da vida dele. O que é bem diferente do homem da cidade que vive em sociedade, onde cada um é por si, há presença de valores no meio rural e ausência desses mesmos valores no meio urbano.

As crianças rurais são obrigadas a incorporarem a cultura urbana em seu meio, enquanto as crianças urbanas desconhecem o modo de vida do meio rural, a não ser de uma forma vulgarizada em festas, danças, piadinhas. “A escola rural é assim, é uma escola que estando lá, está fora dali”. (KNIJNIK, 1996:142)

Há uma grande diferença no modo de vida das duas populações mas, mesmo as pessoas que estão atentas a essa diferença, pouco questionam sobre os conteúdos aplicados em sala de aula, como se o conhecimento dos alunos não tivesse nenhum valor social.

“Tomemos como exemplo uma das disciplinas escolares que num olhar mais apressado parece ser a mais imune às diferenças culturais. Falo da matemática (...) somos convidados a pensar do jeito diferente de ensinar seus conteúdos, em métodos que levam os alunos e as alunas a aprender mais matemática. A pergunta a ser feita é: Que matemática? Seremos tão ingênuos para pensar que o que chamamos de matemática é um conjunto de saberes que foi desinteressadamente definido como a matemática? E que está definitivamente constituído, acabado, portanto é um conhecimento morto ao qual nos cabe somente repassar da melhor maneira possível? Seria portanto, a Educação Matemática somente uma questão de escolha do melhor método?”. (KNIJNIK, 1996:143)

A matemática é apenas uma parte dos parâmetros seguidos pela escola, ela é “eurocêntrica, branca, masculina e urbana”, mas, há outras disciplinas que ignoram a cultura rural, abafando vozes, sufocando sonhos.

A cultura é um sistema, um todo, um conjunto de elementos ligados estreitamente uns aos outros, que pode sofrer modificações no contato com outros povos.

“Cada geração passa por um processo de aprendizagem no qual assimila a cultura de seu tempo e se torna apta a enriquecer o patrimônio cultural das gerações futuras. É nesta capacidade que temos de perpetuar a cultura que reside a possibilidade de progresso. Todo progresso é resultado de uma síntese de elementos novos com elementos já adquiridos. Uma cultura não pode sofrer uma quebra de continuidade entre uma e outra geração. Por mais viva e inventiva que seja uma cultura, as gerações não rompem inteiramente com seu passado”. (OLIVEIRA, 1995:93-94)

A educação escolar das crianças do meio rural fica fragmentada, quando lhe são implantados os valores e costumes urbanos, porque a realidade deles é outra. Eles podem se sair muito bem na escola, mas, na vida eles vão se comportar de outra maneira, muito do que eles aprendem na escola não tem um valor utilitário para a vida deles, está fora do seu contexto.

Se a educação rural deixar de ficar “silenciada no currículo” e os educadores se empenharem no desenvolvimento e exploração da cultura rural, o aprendizado das crianças, a convivência social com certeza terão muito mais êxito e as crianças terão mais prazer nas salas de aula, pois, estarão falando sua própria língua e aperfeiçoando seus conhecimentos, mantendo viva a sua história, seu modo de vida, sem abrir mão da qualidade do ensino.

O que não se deve fazer é repetir a história da colonização do Brasil, onde ocorreram intensos contatos do homem branco com o índio, com os africanos trazidos como escravos e a mistura dos costumes resultou numa aculturação, tendo como conseqüência a perda de várias características de ambas as culturas, não restando nenhuma das raças com sua cultura intacta.

A educação cultural de um povo implica várias dimensões, não comportando um padrão único, restrito. “A cultura é uma hereditariedade social que o homem recebe e transmite. Tudo que é puramente privado não faz parte da cultura”. (Mondim, 1980:173)

Cada povo tem sua própria cultura, não existe sociedade, comunidade desprovida de cultura. “A combinação dos traços culturais em torno de uma atividade básica forma um complexo cultural”. (CORDEIRO, 2002:06)

3. CONCLUSÃO

Fala-se muito em trabalhar a realidade dos alunos, porém, o que se vê nas salas de aula é um projeto puramente teórico, longe do contexto da criança, transportando-a para um mundo desconhecido e descaracterizando-a de seu mundo real. Deixando lacunas em seu aprendizado, enfatizando a cultura urbana, esquecendo seu mundo rural.

Em nome da “Educação” faz-se mistura cultural, priorizando a cultura urbana e desvalorizando o conhecimento da vida rural.

Portanto, o de que se precisa na educação é de pessoas conscientes, capazes de trabalhar no cotidiano escolar não só com parâmetros fornecidos pelas secretarias, mas que juntem teoria e prática e, assim, formem sujeitos críticos, reflexivos, capazes de lutar para a construção de uma democracia que reconheça seus direitos, valores, respeitando a realidade de cada um.

“(...) a pessoa não é um resultado já belo e adquirido desde o nascimento, mas, antes, uma mina riquíssima de possibilidades, pelas quais a pessoa é, em larga medida, uma conquista”. (MONDIM, 1980:298)

O conceito de cultura é um conceito a ser considerado, ao se estabelecer a relação entre Educação e Sociedade. Não há sociedade sem cultura e não se fala em cultura sem interferência de uma relação social.


4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORDEIRO, Aurora Marilda. A Relação entre Natureza, Cultura e Homem. Instituto Superior de Educação de Cláudio: Cláudio, 2002. 6 f. Mimeografada.
KNIJNIK, Gelza. [et al] A Educação em Tempos de Globalização. Porto Alegre: DP & A, 1996, s/p.
MONDIM, Batista. O Homem: elementos de antropologia filosófica. [tradução R. Leal Ferreira e M.A.S. Ferrar, revisão de Danilo Moraes]. São Paulo: Edições Paulinas, 1980, 324 p.
OLIVEIRA, Pérsio Santos. [et al] Introdução à Sociologia. 14 ed., São Paulo: Ática, 1995, 207p.